Clube de Leitores de Ficção Científica



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Anvil of CROM


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Ave César, Aqueles que estão a ponto de morrer saúdam você*


     Nada é como dizem ser...não tem luz no fim do túnel, você não ouve vozes de entes queridos chamando, nem cantos gregorianos ao seu redor. Também não tem um sádico de toga julgando seus pecados, ou nove círculos de condenados semelhante a uma boate fetichista gótica-masoquista, onde os proprietários se divertem causando dor e os frequentadores se assumem como masoquistas hardcore splatterpunks.
      Existe um nada. Apenas escuro. Tente não pensar em nada. Um vazio, uma não-possibilidade de suas faculdades mentais. O que aconteceu comigo logo após foi um misto de memórias retornadas e descrições feitas pela minha colega de genética alterada, Madelyne Phoenix.
Minha última lembrança foi uma discussão causada por outsiders no Torture Garden, lembro que empurrei minha companheira daquela noite para o chão e senti um frio percorrer minha espinha. Madelyne me disse que foi um disparo de uma arma calibre 38, feita por um dos frequentadores não-assíduos que encrencaram com Buffy, ao descobrir que ela tinha entre as pernas algo maior do que o dele. O que ele esperava encontrar no Torture Garden? Bem, para meu azar, o disparo atingiu meu coração e logo tudo aquilo não importava mais, meu corpo foi retirado do local pelo Instituto Médico Legal e levado para suas gavetas no necrotério.
      Passaram vários meses desde esse dia e até hoje não entendo como funciona essa capacidade de Madelyne saber quem vai retornar. Aliás, suas capacidades são tão estranhas quanto o fato de sermos retornados, criaturas que possuem um gene alterado capaz de nos trazer do escuro poço da morte e ainda nos dar um presente amaldiçoado: dependendo de como morremos, nosso gene nos dá novas possibilidades, novas habilidades. Somos mais ou menos como aqueles mutantes do cinema, com a diferença que eles estão vivos (tecnicamente) e nós tecnicamente estamos mortos. Eu disse amaldiçoado porque nossas capacidades sobre-humanas tem um efeito colateral: toda vez que usamos nossa energia se vai, um gráfico que pouco a pouco vai caindo nossa força vital junto com seu uso. Quanto mais usarmos, mais rápido voltamos pro túmulo. E, até onde sei, não haverá um segundo retorno se isso ocorrer.
     Seu solilóquio foi interrompido por Madelyne, ao avistar o alvo de sua caçada:
 -    Adam, aquela garota dentro do caixão sendo carregado para dentro do cemitério é Verônica. Morreu em um bizarro acidente de automóvel onde sua cabeça foi separada do corpo. Horas atrás o agente funerário prendeu sua cabeça ao corpo com um fio de metal para velar o corpo com o caixão aberto. Mal sabe ele que isso fará retornar a garota de seu sono mórbido.
Tem certeza que ela voltará? Não quero ser perseguido por policiais por roubo de cadáver! Diz Adam, o retornado capaz de regenerar seus tecidos, órgãos e ossos em questão de minutos.
Absoluta. E não precisaremos roubar nada, em alguns minutos ela levantará do caixão e demonstrará suas capacidades perante todos. Desconfio que sua forma de morrer tenha algo a ver com isso.
Ao terminar de dizer isso, Madelyne, confortavelmente situada em cima do telhado de um pequeno edifício ao lado da funerária assiste a um espetáculo dantesco, com carros se movendo alheios a vontade de seus condutores, latas de lixo de metal rolando pela rua, placas de sinalização se retorcem e candelabros do velório se chocam contra as paredes do local onde se encontra o caixão. As pessoas presentes ao sinistro fogem aterrorizadas, esquecendo momentaneamente que se encontram em um evento funerário, sem notar que o corpo, que jazia sem vida no caixão ao centro do salão se levanta e emite um grito de horror.
Vamos, é chegada nossa hora. Ao dizer isso, Madelyne habilmente salta pela escada de incêndio do velho prédio e em poucos instantes se encontra em frente ao local do velório.
Verônica Lee, bem vinda a sua segunda vida, retornada dos mortos. Eu sou Madelyne Phoenix, geneticista e bio-médica e o homem ao meu lado é Adam Lugosi, outro retornado. Siga-nos e terá as respostas que procura! Após ouvir o discurso de Madelyne, Verônica se movimenta em direção aos dois, como uma viciada  em êxtase após uma overdose, mas certa de que era o melhor a fazer. Madelyne olha para Adam e com voz de comando ordena a ele:
Adam, ligue para os demais. Por enquanto temos um número suficiente de retornados para nosso objetivo principal.
      Terminado o breve contato, os três possuidores do gene zumbi saem do local antes da chegada das autoridades locais, deixando para trás um rastro de destruição e metais retorcidos causados pela sua mais nova companheira, Verônica Lee, uma retornada com estranhas capacidades de repelir ou atrair objetos metálicos.
Amaldiçoados

     Amanhece na grande metrópole, e seus edifícios projetam sombrias formas sobre seus cidadãos, que olham as notícias dos jornais comentando os acontecimentos da noite anterior. “Agora metais também ganham vida”, diz um jornal local popularesco, referindo-se ao ocorrido e discorrendo sobre os estranhos casos dos últimos meses, onde homens e mulheres saltam dos caixões e saem caminhando na companhia de soturnos companheiros e companheiras. “30 pessoas são internadas essa semana com a frenesi do canibalismo”. Ao ler a manchete um choque percorre o corpo de Madelyne, pois ela sabe que não há mais tempo a desperdiçar. Ela olha para todos sentados ao seu redor, em um barracão improvisado nas docas para servir de laboratório e local de encontro a todos, já que nenhum deles necessita dormir.
Verônica Lee, espero que goste do adorno de metal que esconde sua cicatriz no pescoço. Sei que a morte não retira a vaidade de nós mulheres, em esconder imperfeições. Não é mesmo Lydia? Verônica olha para uma jovem de 21 anos, que esconde o lado direito do rosto com seus longos e lisos cabelos negros.
Peço desculpas pela maneira apressada que a trouxe aqui, mas não temos tempo nem motivo para frivolidades. Você já conheceu Adam Lugosi, o retornado que me acompanhou até seu local de velório. A menina que apontei é Lydia Ryder, nossa levitadora capaz de cruzar o país como nenhum pássaro seria capaz. Sua segunda vida veio com um acidente aéreo, assim como sua cicatriz que insiste em esconder.
O grandalhão ao seu lado é Bóris Bava, retornado após um infarto, e ex-homem montanha levantador de pesos de um circo. Atualmente é muito mais forte do que imaginaria em sua vida anterior.
   O garotão mascarado brincando com fogo nas mãos ali é Nick Cave, foi um bombeiro que brincou demais com fogo e, da mesma maneira que você, foi resgatado por mim em seu velório e trazido ao nosso grupo, que “batizei” de Morituri. Gladiadores de Roma antes de entrar em combate saudavam César com a imortal frase 'Ave Caesar, Morituri Te Salutant'*...assim como nós, que estamos prestes a morrer.
Eu sou...aliás eu fui, uma geneticista e bio-médica que isolou nos seres humanos o gene responsável pelas mudanças que temos observado, o qual eu chamei de gene zumbi, ou gene Z. Apenas 0,0001% da população mundial, algo em torno de 6500 a sete mil são portadores do gene. E até agora tive contato com outros treze retornados. Um deles responsável pela minha morte e ressurreição, se intitulando entre seus pares de Armageddon. Um terrorista capaz de tudo pelos seus financiadores, uma sociedade secreta que pouco ou quase nada sei. Eles se chamam argentários, e seus objetivos não estão claros para mim.
Por que nós? O que nos faz diferentes a ponto de voltarmos dos mortos? Indaga Verônica.
Por que não? Eu gosto de ter outra oportunidade aqui, mesmo que seja breve. Diz Adam a Verônica.
Breve? Como assim? Pergunta Verônica a Madelyne.
Você em sua vida anterior deve ter visto notícias sobre pessoas tomadas de um frenesi por carne e sangue humanos sendo recolhidas a manicômios judiciais. Pois bem, minha pesquisa havia encontrado a alteração no gene humano, que chamei de gene Z. Não descobri como isso ocorre, mas havia encontrado uma forma de chegar até possíveis portadores. Não é possível saber se o gene será ativado antes da pessoa falecer. Infelizmente, um financiador de minhas pesquisas era membro dessa sociedade argentária e resolveu que era hora de usar minha descoberta para seus próprios fins. Enviou três homens com ele. Eles me violentaram, fizeram minha morte parecer um caso de estupro e latrocínio e levaram minha pesquisa. Entre eles estava Armageddon.  Bem, eu já previa a possibilidade de roubarem meus dados e travei minha maleta com toda minha pesquisa e um dispositivo especial. Caso alguém tentasse copiar as informações ativaria um explosivo plástico potente dentro da pasta. Os três morreram com a explosão, mas Armageddon, por um desses acasos do destino é um gene Z, e antes de morrer conseguiu ler o suficiente do que pesquisei para saber como buscar retornados para sua causa.
O que Madelyne quer dizer é que Armageddon tem incentivado pessoas a se matar para ativar o gene. Acontece que de cada 100 possíveis portadores, apenas um retorna. Completa Nick, enquanto usa suas habilidades para acender um cigarro com fogo saindo de sua palma direita.
 Ao todo, identificamos sete seguidores do maldito assassino. Gerard, que se matou dentro de um congelador industrial; Edmund, um motoqueiro e criminoso de segunda que quebrou o pescoço em uma perseguição policial; um saqueador de relíquias submarinas que se afogou voluntariamente, chamado Ian; uma condessa psicopata chamada Carroll de Nerval morta em uma explosão;  desses quatro temos uma idéia de qual sejam suas habilidades, em vista da forma como morreram. Há também Eerie, enterrado vivo por Armageddon, um serial killer com prazer mórbido em matar pessoas, e Glenda uma maníaca-depressiva que cortou os pulsos para seguir seu mestre do terror.
Você disse que eram sete seguidores de Armageddon. Falta um, não? Diz Verônica a Madelyne.
Adam, você foi o primeiro a encontrar Septimus. Deixo que fale por mim.
Septimus Burke é o responsável pela onda de retornados devoradores de pessoas que assola a cidade. Violento e mortal, ele escolheu suicidar-se com a picada de uma de suas serpentes, uma mamba negra. Caçador nato, decidiu experimentar o sangue e a carne de seres humanos, buscando portadores de genes Z da forma mais brutal conhecida pelo homem: o canibalismo.
      Ao fazer isso, teve duas descobertas que mudaram o quadro atual: apenas alguns portadores do gene Z retornam como nós, mas todos eles, ao entrar em contato com a saliva de um retornado voltam a vida, mas como monstros devoradores de carne e sangue humanos, sem consciência de seus atos. Seu número poderá variar de 100 mil a um milhão e o restante da humanidade é gado para eles. Assim como nós, eles tem um tempo de existência limitado, mas Septimus descobriu ao se alimentar de seres humanos que isso retarda seu fim. Ao contrário de nós retornados com o gene ativo, eles não possuem nenhuma capacidade extraordinária, mas também não se desgastam rapidamente como você poderá observar ao usar seus talentos.
Você está dizendo que ao usarmos essas habilidades apressamos nossa volta ao túmulo? Como sabe disso? Pergunta Verônica, com um misto de espanto e medo.
Por que antes de vocês, eu encontrei com outros retornados e houve um confronto entre meus três falecidos amigos e os dois seguidores de Armageddon. Todos morreram em seguida, pois usaram toda sua força. Aparentemente Armageddon se preserva e não se expõe mais, pois não sabe a extensão do uso de carne e sangue humanos para estender sua vida maldita. Quanto   a mim, como minhas habilidades são mentais, faço uso de pouca energia para ativá-las. Dos oito primeiros, restaram Armageddon, eu e Septimus, que se chama assim por ter sido o sétimo retornado. Sua voracidade e neurose em sobreviver a qualquer custo tem causado esse enorme transtorno de mortos-vivos pela cidade. Temos que eliminá-lo e evitar que Armageddon mate mais uma jovem, chamada Ingrid Pitt.

Ave Nêmesis, Morituri te salutant

      As gotas de chuva caem pelo beiral, sendo sorvidas suavemente pelas frestas do velho edifício, enquanto suas faculdades mentais vão levemente deixando sua energia vital se esvair pelo uso demasiado das drogas controladas que tomou em excesso. “Poderia ter feito isso lá fora, sentindo a chuva cair sobre o que me resta de vida ao invés de apenas ouvi-la aqui dentro”, Ingrid Pitt reflete enquanto seus batimentos cardíacos caem vertiginosamente.
      Ela não percebe que alguém observa seu suicídio, sorrindo levemente por não precisar convencê-la a partir, mas com um misto de decepção por não poder se deliciar com o sangue da bela jovem, um hábito grotesco que Septimus adquiriu nas últimas semanas e traz grande prazer ao demônio desmorto.
      O impacto do golpe chega ao mesmo tempo em que o som aos seus ouvidos, arremessando a criatura sádica contra a parede. O agressor, Boris Bava cresce em fúria e tamanho a sua frente.
Levante-se para que eu possa terminar de quebrar seus ossos, besta insana! Grita Bóris. Enquanto diz essas palavras, Adam se coloca com o pé direito sobre o pescoço de Septimus, Nick se encontra do lado de fora, em campana, e Lydia levita até o segundo andar onde está o apartamento de Ingrid, levando consigo Madelyne e Verônica pelas mãos.
Verônica fique aqui comigo. Vamos ver se podemos salvar a garota de sua decisão inconsequente. Diz Madelyne enquanto mede a pulsação de Ingrid.
      Lá fora, uma massa de ar frio em forma de névoa se aproxima dos combatentes, mas Nick aquece o ar ao redor do local impedindo que ela obstrua a visão de todos. “Gerard deve estar perto”, pensa Nick.
Lydia que estava do lado de fora do apê, sente um pavor irracional percorrer seu corpo, como se toda sua vida anterior fosse pautada por uma fobia aérea. Ao se virar, percebe que está sendo tocada pelas mãos de Eerie Danzig, um empata retornado. Ele se regojiza com a tortura mental que inflige sobre Lydia.
       Dentro do apê, Adam é atingido por um golpe invísivel, realizado na verdade pelo veloz Edmund, movendo-se rápido demais para os olhos de Adam e Bóris perceberem sua presença. Ao derrubar momentaneamente Adam, Septimus salta em direção a Bóris tirando seu centro de equilíbrio e jogando os dois pela janela em direção a escada de incêndio.
Se afastem da garota ou explodirei suas cabeças. Diz a Condessa Carroll De Nerval, olhando Verônica e Madelyne.
Deixe ela comigo Madelyne. Veja o que pode fazer pela menina.
Tome cuidado com a Condessa, Verônica. Sua crueldade supera em muito suas ameaças. Verônica se levanta com uma agilidade impressionante para quem estava morta até horas atrás, e com um gesto de suas mãos, objetos de metal em todo o apartamento se movem em direção da Condessa como petardos mortais. Ela explode a maioria, mas o que resta é suficiente para deixá-la fora de ação.
Excelente Verônica. A menina não tem mais salvação. Já estava morta quando chegamos aqui, mas tenho quase certeza que se gene Z irá se ativar em instantes. Ela tem um gene poderoso, possivelmente tão forte quanto o gene de Armageddon. Enquanto fala isso, Madelyne ajoelhada segura em seus braços a menina Ingrid, em processo de retorno pelo gene zumbi.
Na escada de incêndio, a brusca aparição de Bóris e Septimus se digladiando fez com que Eerie perdesse o contato com Lydia. Em um golpe de ódio e frustração por perder o controle sobre si, Lydia levanta Eerie sobre sua cabeça e arremessa o retornado doentio dois andares abaixo, tirando-o de ação.
A fechadura da porta do apê é girada e um homem de meia idade entra no local e pára, estarrecido com a cena que observa. Sua filha caída no chão, nos braços de uma estranha mulher; dois homens que mais parecem feras do lado de fora da janela do apê de sua filha; uma criatura de movendo como um míssil ao redor de um homem que parece não se importar com as agressões que sofre; e uma mulher caída no chão a sua frente enquanto outra o observa.
O velho policial tira sua arma e dispara no primeiro alvo que vê a sua frente. Infelizmente para Verônica, ela é o alvo a vista, mas o disparo acerta apenas seu ombro esquerdo.
Pai...A primeira visão de Ingrid ao voltar do mundo dos mortos é seu velho pai policial com a arma em punho, reagindo para proteger sua filha do que considera uma agressão.
Aproveitando a confusão momentânea, a sádica Condessa faz a arma de Thomas Pitt explodir em sua face, matando o dedicado pai e policial, sem que sua filha possa esboçar uma reação imediata.
Nãããããõooooo!!! Junto com o grito de desespero da jovem, ao olhar a morte de seu pai o incidente dispara suas capacidades incipientes e aqueles que seriam o Nêmesis do grupo Morituri são atingidos por uma imensa massa de energia telecinética que arremessa todos a quilômetros dali, sem se importar com cabos de transmissão de energia, paredes ou qualquer objetos no caminho. Em seguida, a jovem desmaia nos braços de Madelyne. Ela olha ao redor e diz:
Morituri, reúnam os feridos e vamos embora. Não há nada mais a fazer aqui.

Epílogo

Ingrid desperta do choque e olha a sua volta o quartel-general daqueles que foram salvá-la e acabaram salvos pelas novas habilidades da jovem. Na cama ao seu lado está Verônica, alimentada por sangue retirado de bancos de doação.
Não se preocupe. Em breve você e Verônica estarão prontas para os próximos desafios. Eu sou Madelyne e você é bem vinda se quiser ficar conosco, Ingrid.
Irá gostar de sua nova vida, menina. Não precisa mais dormir, não precisará comer, e terá todo o tempo do mundo para fazer o que gosta. Pelo menos até suas forças se esgotarem...
Não ligue para o que Adam diz, ele é um retornado que não perdeu o hábito de tentar pegar todas as garotas que conhece. Diz o gigante Bóris em pé ao lado de Ingrid, com um sorriso tão grande quanto seu tamanho.
B-bem, acho que até saber mais o que acontece, e-eu vou ficar aqui. Eu havia lido nos jornais sobre pessoas como vocês, mas não acreditava muito em tudo que lia...comenta uma reticente Ingrid.
Bem, somos portadores do gene zumbi, mas diferente dos demais retornados presos pelos federais que ouviu falar ou leu em jornais, temos total controle sobre o que fazemos e não nos interessamos em aumentar nossa longevidades às custas de inocentes, como o grupo de Armageddon que matou seu pai. Ao dizer isso, Nick percebe a tristeza no olhar de Ingrid e se afasta da menina.
Nick, Bóris e Adam. Até Lydia se recuperar do ataque psíquico e Verônica e Ingrid terem condições de nos acompanharem, vocês ficarão responsáveis pela segurança do local. Eu ficarei ausente por três ou quatro dias, mas devo retornar até terça-feira. Terminada a conversa, o grupo se dipersa pelo imenso armazém da doca 07. O sol começa a se pôr em mais um dia na cidade maldita.
Na cobertura do mais alto prédio da metrópole, um homem soturno, vivendo sua segunda vida olha o pôr do sol em alto mar, enquanto seus negros pensamentos revolvem sua mente perversa.
Eu substimei o pequeno grupo Morituri de Madelyne, mestres argentários. Mas isso é algo que não ocorrerá, pois Thundar Armageddon não comete o mesmo erro duas vezes.
E nenhum outro erro, esperamos. Diz o executivo sentado na ponta da mesa, encoberto por sombras como se fizessem parte de seu corpo e alma. Ao seu redor, dispostos pela mesa do amplo salão, 28 membros da sociedade mais fechada e poderosa do planeta conspira em um mundo novo, com pessoas que se levantam dos mortos e mortos que demonstram habilidades extraordinárias.
E os demais membros da sua “força” Nêmesis?
Glenda Von e Ian Thesiger foram chamados para substituir a Condessa e Edmund. Perdas aceitáveis. Gerard escapou ileso, Septimus Burke e Eerie Danzig estarão prontos para o próximo movimento em nosso jogo de xadrez cósmico, senhores. Ao terminar de dizer isso, Armageddon aperta contra os lábios um coração ainda quente, se alimentando do sangue jovem que escorre das artérias abertas. Um novo jogo se inicia.

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Conto selecionado entre os melhores do país - 8º CONCURSO LITERÁRIO GUEMANISSE DE CONTOS E POESIAS / 2009


O anel e a safira


"...A nação pode estar certa de que o Rio Grande não esquecerá jamais os seus deveres. O Partido Republicano, (...) e eu, pessoalmente, tudo faremos para impedir um gesto de desvario. Não iniciaremos, nem auxiliaremos nenhum movimento contra a ordem constitucional...". Borges de Medeiros, governador do Rio Grande do Sul, em discurso realizado antes do golpe militar contra a ordem democrática e o presidente Washington Luís, em 1930.

Primeiro dia: faça-se a luz!

O vento nessa cidade é algo que impressiona, ele é como uma navalha que corta a superfície da pele de modo contínuo, causando enorme desconforto a quem se expões demais. São quatro horas da madrugada do dia 12 de outubro de 1930. O povo se prepara para o feriado nacional, e o golpista Vargas deve estar saindo do Rio Grande  rumo a Ponta Grossa. Tenho cinco dias para investigar os rumores que ouvi antes de sua chegada aqui na estação. “Tropas revolucionárias se preparam para invadir o Espírito Santo”, leio na manchete do jornal matutino que acaba de chegar a estação princesina. Eu e Safira teremos que tomar uma difícil decisão durante os dias que antecedem a chegada das tropas vindas do extremo sul.
Ei senhor, quer comprar a edição do dia? Pergunta um menino que acaba de abrir o pacote de jornais.
Me dê um exemplar, guri.
O senhor não é aquele famoso detetive que viaja pelo caminho do Peabiru com uma linda mulher ao seu lado???! pergunta surpreso o menino de apenas 12 anos e muita perspicácia.
Hã...sim, sou eu mesmo. Quanto custa o jornal?
Cinquenta centavos.
Pego o jornal e me dirijo ao hotel em que Safira está, minha bela colega de trabalho e amante ardente. Ao chegar lá, falo com o recepcionista, um rapaz jovem e magro, cheio de sardas na face.
Bom dia, procuro Safira Holmes. Creio que ela me aguarda.
Hã, senhor...a senhora Safira se encontra acompanhada pelo capitão Fragoso...
- Então me dê o quarto em frente ao dela para que eu possa descansar o resto da madrugada que ainda tenho. Tome, uma gorjeta para não ver quem chegou ou perguntou qualquer coisa.
Sim senhor! Quarto 13, ao lado do 15 e em frente ao dela, o 14.                                                                                                                                    
Subi pelas escadas até o quarto e esperei o jovem recepcionista voltar ao saguão. Então dei duas batidas leves na porta de Safira, como combinamos quando estivéssemos em outras companhias. Ela demorou alguns minutos, abriu a porta coberta com seu sobretudo. Entrega uma mala para Alvarez e entra no quarto mais uma vez. Ele olha pela fresta da porta e vê um homem enorme deitado sobre a cama, com duas garrafas de conhaque vazias no chão. Safira sai e percebe o olhar de Cabeza de Vaca.
Alvarez, sei que não gosta desses métodos que uso às vezes, mas consigo mais informações com aquele porco ali na cama depois de embebedá-lo que você conseguiria em cinco dias de buscas e perguntas na cidade. E o porco fardado bebeu tanto que não conseguiu fazer nada além de se esfregar e jogar aquele bafo em cima de mim se saber disso te deixa mais tranqüilo.
Alvarez abre a porta do quarto em frente ao que Safira estava e coloca sua mala dentro dele. Em seguida abre espaço para que ela entre. Ela se dirige ao banheiro e pede ao detetive que a espere na cama. O moderno hotel contava com um sistema novo de aquecimento de água, o suficiente para quebrar o gelo daquela manhã de 12 de outubro. Alvarez se deita, sonhando com as batalhas que ocorreram desde que no dia 03 de outubro de 1930 os conspiradores se tornaram revolucionários e tomaram em armas contra Washington Luís. É despertado pela bela Safira que o abraça silenciosamente, nua com sua pele de jade brilhando com as gotas de água que refletem a pouca luz ambiente.
Safira... Murmura Alvarez ao tocar seus lábios. E os amantes se reencontram, deixando o calor de seus corpos aquecerem aquele amanhecer gelado nos Campos Gerais. Ao se levantarem, o dia já estava perto da metade, o barulho de fogos e festas pelo dia da padroeira do Brasil preenchia a cidade e a estação de trem era seu local mais movimentado. Vendedores de algodão-doce ou bugigangas em geral, civis e militares, toda a cidade parecia estar presente à praça em frente a estação, para assistir as festividades. Mas algo mais havia no ar.
Temos um grande movimento de soldados pela cidade, não acha querido?
Sim Safira, e vai aumentar à medida que se aproxima o dia em que as tropas do Sul chegarão à cidade. Vou tentar saber com exatidão o horário. Conte-me, o que aquele porco contou que valeu o esforço de suas horas ao lado de tão abjeta pessoa?
Parece que o presidente ainda tem as tropas de São Paulo e do Distrito Federal. Tão importante quanto ter essas tropas, é saber que uma parte da Maçonaria e das autoridades eclesiais ainda não está convencida que essa 'revolução' será algo bom para o país, e espera o momento certo de agir. As informações que tenho confirmam nossas suspeitas: temos um grupo de conspiradores dentro do grupo revolucionário, que pretende um atentado contra o futuro presidente Vargas, por acharem ele “flexível” demais, segundo palavras do próprio capitão Fragoso.
E a maçonaria está avaliando se deixa ou não ocorrer esse atentado, segundo suas conveniências políticas. Bem, vamos comer algo naquele restaurante que vimos ao lado do hotel e à tarde farei uma visita a loja maçônica aqui perto.
E eu irei à missa... Safira olha para Alvarez e dá uma piscadela marota.
Começa a escurecer quando Alvarez consegue autorização para sua entrada na loja Maçônica local, uma das mais antigas do Estado do Paraná. O irmão maçom, guardião e vigilante responsável pela entrada da loja o recebe de forma muito gentil e educada, mas com a desconfiança habitual que a profissão de Alvarez Nunes Cabeza de Vaca causa em sociedades fechadas.
Então o senhor conhece o grande detetive londrino, senhor Alvarez Nunes?
 Sim, senhor Ribas. Foi ele que ensinou a mim quase tudo que sei hoje em termos de técnicas científicas e análise de casos policiais.
Uma profissão deveras interessante. Mas soube de um caso intrigante que ocorreu na Inglaterra, nos últimos anos do século XIX e que a polícia inglesa, mesmo com todas as técnicas modernas, não conseguiu encontrar o assassino de prostitutas... Sente-se certa ironia na voz do jovem maçom ao falar essas palavras a Alvarez Nunes.
Na realidade senhor Ribas, tive acesso a todos os documentos desse caso e se o autor não foi denunciado formalmente, é porque houve influências maçônica e da família real suficientes para que isso não ocorresse; o mal que adviria dessa natureza ser exposta a luz da verdade seria pior para sociedade vitoriana que os crimes cometidos nas sombras da capital inglesa...
Apesar do tom crítico na resposta de Alvarez, Ribas entendeu que o detetive manteve o silêncio necessário no caso perante a imprensa, ciente que envolvia muito mais que simples homicídios. Se desconhecia o caráter do homem a sua frente, agora o maçom tinha a confirmação dentro da casa maçônica que Alvarez é um cavalheiro entre seus pares.
Diga-me do que precisas, Alvarez.
Uma conspiração se anuncia dentro do estado de coisas que se forma com a revolução. De que lado estão os homens de bem dessa casa?
Estão ao lado da democracia e dos homens livres.
E quem será o autor da tragédia? Ele está aqui na cidade ou vem de trem com Vargas?
Nem um nem outro. Eu diria a você que fique de olhos abertos em Epitácio Pessoa, o paraibano, pois ele tem um débito de dois mil réis e nenhum dinheiro em caixa para pagar os revolucionários. Góis Monteiro, Juarez Távora, Leopoldo da Fonseca, Siqueira Campos, Borges de Medeiros ou membros do clero desgostosos com mudanças, todos podem ser o suspeito que busca... Todos têm seus motivos para não deixar o gaúcho chegar ao poder.
Uma lista grande e poderosa para eu investigar em tão pouco tempo, Ribas.
Fique atento e descubra o homem que fará o atentado, desconfio que ele tenha cúmplices buscando o melhor meio para isso, para abençoar nosso ditador. E descubra o horário de chegada do trem. Nós já decidimos, não vamos interferir nos rumos da história. A maçonaria se calará sobre esse assunto.
Eu já imaginava. Obrigado mesmo assim.
E o dia termina com as badaladas do sino da Igreja. Alvarez pensa: espero que as fofocas das donas de casa em meio ao sermão do padre tenham resultado em coisa melhor para minha Safira. Ao terminar de pensar isso, ouve quase sem querer a conversa de duas comadres que vinham da igreja matriz.
Você viu que homem elegante o novo bispo? Dizem que ele é médico...
Pois eu ficaria aos seus cuidados. Também com o ébrio que tenho em casa, se matando com bebidas de todos os tipos e cores...
Sexto dia: o teatro está formado e os atores em posição
Após quatro dias de investigações quase infrutíferas, partindo das informações coletadas por Safira sobre um grupo de dez cangaceiros vindos do nordeste para Ponta Grossa, Alvarez diz:
Tem alguma coisa que não está certo nisso tudo, Alvarez. Alerta Safira ao analisar todos os fatos recolhidos nos últimos cinco dias de investigação.
O que lhe parece Safira? Temos apenas uma hora até a chegada do trem a estação.
Tem soldados demais aqui para que qualquer um, mesmo aqueles matadores nortistas, possam apontar armas para Vargas. Um movimento em falso e qualquer pessoa que o faça seria varado a disparos de fuzil de todos os lados!
Concordo contigo. Safira, o que faria se quisesse se aproximar de um futuro governante para assassiná-lo sem despertar suspeitas?
Usaria um Judas. Responde ela.
O apito do trem anuncia a chegada das tropas vindas do Sul. A multidão se aglomera perto da estação saudando o futuro governante da nação brasileira, o ditador Getúlio Vargas.
Lá vem eles. Diz Alvarez ao apontar um grupo de dez a vinte homens a cavalo, disparando contra o trem de Vargas.
Antes que qualquer estrago possa ser feito, o efeito surpresa dos homens que tentam de assalto atacar o trem termina quando são repelidos por centenas de disparos de todos os lados, criando um pandemônio entre soldados e civis ao redor da estação. Dos vinte homens que atacavam o trem, doze ou mais fogem ante a saraivada de fuzis e outras armas de fogo. O restante é morto.
Um grupo de Judas bem pago para atirar e fugir. Aqueles que conseguem, recebem sua parte e a parte dos que morrem em ação. Vamos até a estação. O principal ator dessa manobra deve estar esperando a chegada de Vargas. Comenta Alvarez a Safira.
Ao descer na estação, Getúlio e sua comitiva são recebidos por autoridades locais e pelos comandantes da revolução. Entre eles uma figura insuspeita que se aproxima de Vargas e faz um gesto de apreço conhecido de todos. Antes que Vargas beije o anel do bispo, Alvarez se atira contra o corpo do sacerdote, jogando-o ao chão. Safira se mantém em pé entre os corpos dos dois, Getúlio e as armas dos guardas, que ficam espantados ao ver o sacerdote ser seguro pelas mãos de Alvarez, que não deixa ele esconder o anel.
Perdoe os modos de meu colega, senhor Vargas, mas foi a única forma de impedir que fosse envenenado pelo anel do bispo.
Após acalmar os ânimos, Safira e Alvarez explicam como chegaram ao autor do atentado.
Após meu encontro com a maçonaria, fiquei com a dúvida sobre quem deveria ser meu principal suspeito. Epitácio Pessoa era certamente um homem com ambições maiores, e uma dívida maior ainda, mas nada podia provar contra o tio do falecido João Pessoa.  Os gaúchos e os militares eram fiéis demais a revolução para traí-lo, restava apenas um poder grande o suficiente para fazer frente aos sulistas: o grupo de fazendeiros e industriais do Sudeste que não queriam a mudança na política atual. E tinham o apoio da igreja paulista que como sempre apóia aqueles que podem comprar seu pedaço de paraíso.
E como tu chegaste ao bispo Dornelles, detetive Alvarez? Pergunta o caudilho gaúcho.
Safira...diz Alvarez, olhando para sua companheira.
Bem senhor Vargas, quando fui a missa no dia em que Alvarez esteve na Maçonaria, percebi duas coisas além das conversas de comadres: o bispo fez um sermão sobre Mateus 24:32-36 e Lucas 17:20-21. Falava sobre o sinal dos tempos, sobre o Reino de Deus e sobre o papel da Igreja. Um discurso de descontentamento sobre a revolução que viria, com um sotaque bem paulistano.
Então somando a sua preocupação, com o perdão da palavra senhor Vargas, supersticiosa, em ser vítima de atentados a armas de fogo, mais o teatral ataque dos cangaceiros para exaltar a todos, concluímos que a pessoa que chegaria mais próxima do senhor sem despertar suspeitas seria o bispo. Um homem que tem o conhecimento médico necessário de venenos, somado ao anel de bispo, que seria beijado por você e injetaria o potente veneno. Com certeza senhor Vargas, você não reclamaria da picada, como homem de fronteira que é, não iria demonstrar desconforto com uma simples agulhada até que fosse tarde demais.
A conversa é interrompida por um apito de trem.
Senhores e senhora. Creio que esse apito avisa à hora de partirmos. Sua mão eu sei que posso beijar com segurança, bela jovem. E a sua aperto com a certeza que temos pessoas boas e sagazes na construção de um novo país. Diz Vargas beijando a mão de Safira e apertando a mão de Alvarez.
Para onde vão agora, jovens?
Continuaremos o caminho do Peabiru, o caminho que leva ao céu. Diz Nunes ao futuro presidente do Brasil.
- Bem, tudo o que precisarem é só entrar em contato comigo. Estarei no rumo a Capital Federal, mas sempre aberto aos amigos.
Epílogo
Será que fizemos a coisa certa, Alvarez? Pergunta Safira, deitada no colo de Alvarez, na cabine particular dos dois em um trem rumo a América de língua espanhola.
Safira, creio que só a história dirá se Getúlio será um libertador ou apenas mais um ditador na história desse país. Mas nós fizemos o certo. Nenhum homem ou religião tem o direito de decidir sobre a vida de outro.
Dizendo isso, Alvarez beija a testa da companheira e serra os olhos para a longa viagem que se inicia.

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